terça-feira, 23 de abril de 2019

O FLAUTISTA

(imagem do google)

Tudo começa pelas especulações. Em tempo de notícias falsas, tais especulações podem ser meras inferências (sinônimo de ilações, palavra tão em voga), ou resultado de análises sérias e atentas. Nós, meros leitores e observadores, nos perdemos no cipoal de informações contraditórias, o que nos leva a apostar nos veículos, mais ou menos conhecidos e com com uma  linha editorial definida.Tais veículos possuem, e confiam em, suas fontes, todas elas com a capacidade, incompreensível para nós, de vazar dados supostamente sigilosos. 
Depois das especulações, vêm os vaticínios. Aí, então, tudo fica mais difícil, porque há gente que realmente tem como prever o que virá, enquanto outros trabalham com as tais notícias falsas, hoje chamadas, afetadamente, de fake news, para, deliberadamente, causar confusão. 
Já faz um tempo razoável que se ouve falar na libertação do condenado Luiz Inácio Lula da Silva, preso há um ano por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o que até hoje não ocorreu. Com o mais recente episódio envolvendo um inquérito instaurado pelo presidente do STF para, segundo ele, "proteger tal colégio contra ataques a sua honorabilidade e eventuais ameaças a seus membros", vieram à luz algumas peculiaridades. Uma delas, foi  a escolha monocrática do relator de tal inquérito, diferentemente do rito da Casa, após a instauração mesma da inquirição sem consulta ao pleno; num segundo momento, ficaram evidentes as fissuras nas posições dos membros colegiados; e, ainda, a censura a dois veículos de comunicação, uma revista digital e um blog, sob a alegação de que determinada matéria, que fazia referência ao próprio presidente do STF, fora publicada sem que existisse, de fato, o documento citado a comprovar a veracidade do fato. Embora tal documento exista e esteja disponível na internet para quem queira consultá-lo, sua cópia não havia, ainda, chegado ao Ministério Público, como justificou o relator. Essa história polêmica foi dissecada à exaustão e não há necessidade de entrar-se nos detalhes. Ao fim e ao cabo, tal censura foi revogada, porque o documento - aleluia! - apareceu (o inquérito, porém, continua a vigorar). Aqui, também, ficaram evidentes os posicionamentos contraditórios dos ministros sobre a censura à liberdade de expressão. Imediatamente após a revogação, o presidente do STF, cancelando decisão do ministro Luiz Fux, autorizou que o presidiário Lula da Silva desse entrevistas a revistas e jornais de dentro da prisão. Vieram novas especulações e uma delas apostava que isso seria o primeiro passo para libertar o condenado, após decisão em plenário contra reclusão após condenação em segunda instância. 
Só que, no meio do caminho, havia um STJ e um julgamento de recurso apresentado pela defesa do preso para redução do prazo da pena. Caso tal recurso seja aceito pela quinta turma do Supremo Tribunal de Justiça, Lula da Silva já terá, em setembro, cumprido 1/6 da pena. Como é réu primário e idoso, terá o benefício da progressão. 
A rigor, não sou da área jurídica para opinar, mas, mesmo assim, na minha modestíssima opinião, não haveria justificativa para a redução de pena, porque houve clara intenção do condenado de esconder que o dinheiro da reforma do famoso tríplex era de propina e porque ele fez tudo muito bem feito a fim de ocultar que é o proprietário do imóvel. Mas... quem sou eu para suspeitar?
Minha preocupação é outra. Saindo Lula da Silva da cadeia para prisão domiciliar, não posso imaginar o que acontecerá no país, conhecendo, como conhecemos, a absoluta falta de limites de seus seguidores; e passando pelo plenário do STF a decisão contra a prisão após condenação em segunda instância, vão se abrir as portas das cadeias para todos os condenados que estão cumprindo pena. Aí, vem-me à lembrança o que cantou Cazuza: " a sua piscina está cheia de ratos..." e, também, o que entoou Almir Sater: "a rataria pula fora da banheira..." Na falta de um Chapolin Colorado que venha nos salvar, a solução estapafúrdia que me ocorre - já que vivemos num Estado surreal - é chamar o velho e bom flautista de Hamelin, para, com sua flauta e sua melodia mágica, conduzir os "ratos" ao seu fim, afogados num rio. Seria cômico, se não fosse trágico... 





quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

POLITICAMENTE CORRETO

(imagem do google)

Faz um tempinho que venho me propondo escrever sobre o tema, porém sempre adiando. Até que, na última segunda-feira, 26/02/2018, dando uma zapeada na TV, vi a chamada para um debate que seria reproduzido em parte pelo canal Cultura. Os debatedores, ninguém menos que Mário Sérgio Cortella, Leandro Karnal e Luiz Felipe Pondé. Tratava-se do resumo de um evento que ocorrera publicamente, no qual se discutiu sobre Ética e Democracia. A certa altura, o primeiro fez uma provocação, perguntando o que os outros dois pensavam de "um palavrão contemporâneo, o 'politicamente correto'". As respostas e colocações foram bem interessantes e o que eu mesma penso a respeito tem afinidade com o que foi dito.
Afinal, o que é mesmo "politicamente correto"? Segundo o dicionário eletrônico Antônio Houaiss, uma das acepções para "política" é "série de medidas para a obtenção de um fim", mas pode também significar "astúcia, maquiavelismo no processo de obtenção de alguma coisa" em sentido figurado. Já para a palavra "correto" temos "que se corrigiu" ou "que teve suas falhas emendadas, corrigidas; emendado". Fica claro que o tal "palavrão" do professor doutor Cortella pode servir a dois senhores: tanto ter a função de corrigir falhas cometidas durante um certo tempo, bem como funcionar de modo maquiavélico, a fim de manipular opiniões.
Pois bem. No meu modesto pensar e de acordo com minha observação, tenho percebido que se vem usando a expressão de maneira exagerada. Explico. Meu filho hoje é "pessoa com deficiência intelectual", mas já foi "pessoa portadora de deficiência mental" ou "pessoa portadora de necessidades especiais". E eu me pergunto: que diferença fazem tais mudanças para designar pessoas que nasceram com ou adquiriram dificuldades variadas que as tornam diferentes das demais? Melhor seria que, em vez de preocupar-se com a denominação, o Estado e a sociedade como um todo percebessem o diferente com sensibilidade e pudessem proporcionar a ele não vantagens, mas condições de viver dignamente, com oportunidades iguais aos considerados "normais", dentro dos padrões estatísticos. É claro que não caberia mais chamar-se  aquelas pessoas de retardadas, ou mongoloides, como costumava ocorrer, mas, infelizmente, o respeito verdadeiro ainda não acontece, nem dentro do Estado nem da sociedade. As ações ainda passam longe das tais "necessidades especiais" e o bullying continua a acontecer, meio às escondidas, como nas próprias famílias, ou até despudoradamente, por maldade genuína.
Observo que hoje quase tudo está voltado para a suposta "justiça" a ser feita àqueles que, durante longa data, foram tratados como inferiores, menos bons, menos corretos, com menos oportunidades e vai por aí. No entanto, penso que estamos chegando às raias do exagero. As minorias já não são mais minorias e injustiças vêm sendo perpetradas sobre quem não tem culpa de nada. O mais recente fato foi durante o carnaval, quando indivíduos que se fantasiaram de índios, se viram criticados porque "vestir-se de índio como fantasia para curtir a folia" seria um desrespeito aos primeiros brasileiros. Esquecem-se, no entanto, das verdadeiras barbaridades que são cometidas contra nossos conterrâneos diariamente, pilhando-lhes as terras, o ethos cultural, a dignidade. Pura hipocrisia.
O resultado disso, ao meu olhar, tem se tornado muito mais um desserviço do que um serviço prestado ao diferente. Tenho visto crescer a intolerância nas questões raciais, de gênero, e muitas outras. Ou seja, em vez de se fazer justiça, fomenta-se o ódio num mundo já saturado de intransigência, de repressão e de fanatismo. Onde chegaremos não sei, mas trago a provocação para reflexão dos que se sentem travados, assim como eu.  A propósito, seria tal reflexão politicamente correta? 

sábado, 10 de fevereiro de 2018

SER, OU NÃO SER: A ESCOLHA É SUA

(imagem do google)

Meu amigo é um chato confesso e assumido. Nunca disfarçou sua chatice. Chega a fazer publicações esporádicas sobre o assunto. E aliás, chatices há de vários tipos e para todos os gostos. O que é chato para mim, não necessariamente será chato para você.
Como todo mundo, tenho as minhas e quem me conhece bem sabe quais são. Vou falar, pois, do que acho chato. Tenho horror a música sertaneja, pagode, funk e afins. E aquele vizinho que gosta e resolve ouvir na maior altura, achando que também vou gostar, é um chato profissional. Detesto gente que conversa comigo colocando a mão em mim o tempo todo. Não sou exatamente refratária ao toque, mas aquela mãozinha no meu ombro e nos meus braços a cada frase, como que para chamar atenção, é de uma chatice sem fim. Pessoas que falam sem parar e não dão a deixa para que você entre com sua opinião, além de chatas são inconvenientes. Certos serviços domésticos são chatos de executar e me dão ataque de preguiça. Aquele chato que me pede várias coisas ao mesmo tempo, sem me dar uma folga para respirar, é, mais que tudo, um folgado: provavelmente não está fazendo sua parte das tarefas. E vai por aí. Atenção, porque estou falando apenas das pequenas chatices do dia a dia. 
Agora vem o pior: a grande chatice! E para descrevê-la recorrerei a um adjetivo antigo e praticamente em desuso no nosso idioma, ao menos no Brasil : UNTUOSO/A. Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, duas acepções definem bem o que me aborrece. 4. Derivação - sentido figurado:  que causa agradável sensação de brandura; macio, meigo, melífluo, suave;  5. Derivação - sentido figurado. Uso: pejorativo: cheio de unção ('maneira insinuante'); bajulador. Esse tipo de pessoa, na minha opinião, é detestável. Não apenas por ser chata, mas, principalmente, por ser falsa.
Convivemos nas redes sociais e há um excesso de preocupação com a imagem; por esse motivo a web anda cheia de sujeitos untuosos. E é muito fácil perceber a diferença entre GENTILEZA e UNTUOSIDADE. A pessoa gentil trata os amigos, sejam reais ou virtuais, com delicadeza e simpatia, mas não é, nem de longe, um bajulador. Já o untuoso - ou untuosa - é aquele indivíduo cheio de rapapés - outra palavra pouco comum, mas essa vou deixar para vocês procurarem o significado ou inferirem pelo contexto. Agradece demais, elogia demais, cumprimenta demais e, o que é ainda pior, se autopromove através desses estratagemas, chamando atenção pelo seu modo melífluo de tratar todo mundo. Mas é daqueles que, no dia em que lhe pisam o calo, se esquecem da compostura e sabem ser desagradáveis, arrogantes e... chatos ao último grau.   
Tomo muito cuidado com esse tipo: evito falar de minha vida pessoal e estender muito o papo. Trato bem e é só. Nessas horas, prefiro o meu amigo. A propósito, talvez seja também pelo fato de ele ser assumidamente chato que gosto muito do gajo. Não é falso e fala sobre tudo com a maior sinceridade. Prefiro um comentário sincero, ainda que incômodo, do que falsidade gratuita só para angariar simpatia. Num tempo de desconfiança, aparência e hipocrisia, melhor não vacilar. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

TUDO RETORNA E TUDO SE RENOVA

(imagem do google)


Certa vez, há alguns bons anos, uma amiga querida, que conhecia um significativo pedaço da minha vida e também parte do que se passava na minha alma – ela sempre teve um olhar arguto e sensível -, disse-me algo de nunca mais me esqueci. “Você é uma flor de lótus”. Estávamos dentro do seu carro, à porta de minha casa, voltando do trabalho. Chamei-a para entrar e tentar esclarecer aquela frase, mas a amiga, de nome Fátima B., agradeceu, beijou-me o rosto e despediu-se, olhando fixamente para mim com seus olhos invariavelmente brilhantes.

Ainda aturdida com aquelas palavras, depositei meu material sobre a mesa – acabara de dar aulas -, comi alguma coisa e entrei num banho. Abri a torneira e deixei descer a ducha quentinha. Quanta coisa já viera à tona ali, naquele lugar cheio de vapor e silêncio...

“Você é uma flor de lótus”. Uma flor... bem, sim! Sou mulher, soprou-me a razão. Mas de lótus? Por quê? Minha simpatia pelos sistemas de crenças orientais, certamente! A razão de novo. Na verdade, encontrava-me a anos-luz da compreensão. Para os hinduístas, a Índia não é um país, é uma cultura, uma das mais velhas e estáveis da terra. Alberuni, sábio muçulmano do século XI, que dedicou treze anos ao estudo daquele povo, afirmou: “O leitor deve sempre ter presente o fato de que os hindus são inteiramente diferentes de nós, em todos os sentidos...” Por exemplo, a lei hindu de causa e efeito, conhecida como carma, não é um código humano ou divino. É, sim, uma lei natural, tão impessoal, imparcial e inexorável quanto à lei da gravidade. Assim sendo, cada um de nós é responsável pelo que pensa, fala ou faz e pelas próprias escolhas. Justiça.

Uma das práticas do hinduísmo é a meditação, o não-pensar, o esvaziamento da mente. Foi o que fiz ali, naquele momento de paz. Perdi a noção do tempo. Foquei nos meus vórtices de energia ao longo da coluna vertebral e suas respectivas cores. Despontaram, então, as flores de lótus, cada qual com seu número de pétalas, de acordo com cada vórtice. Logo depois surgiu um rio manso, que, mesmo cheio de lodo e podridão, estava coberto daquelas flores, puras, perfeitas.

Sumiram, repentinamente, as imagens e saí do estado meditativo. Finalmente, comecei a compreender a mensagem. Eu era alguém que viera do lodo, da pobreza, da falta – minha família possuía recursos materiais limitados. Não foi um começo fácil. Mas houve amor sem conta. Sou a terceira filha de minha mãe, que sofrera com dois abortos naturais antes de minha chegada. Deram-me o nome de Angela, assim, sem o acento circunflexo, porque minha mamma descendia de italianos. Em grego, Angela quer dizer a mensageira. Com o passar do tempo, tornei-me, realmente, uma flor de lótus, a pureza e a beleza que brotou da lama, porque a vida me ofereceu algumas oportunidades e eu não as deixei passar. Tive uma educação primorosa, a sorte de conviver com gente de bem ao longo do caminho e, a despeito dos percalços - quem não os tem? -, vou conseguindo seguir o rio límpido que se tornou a minha vida.

Quero deixar esta história, verdadeira, como um mimo de fim de ano para todos os meus amigos. Aprendi a lição do amor e da esperança. Creiam, somos maiores que nós.

Do estrume brota o alimento, da compostagem de restos nascem flores e frutos. A natureza é sábia. O universo, os orbes, nosso amado planetinha azul, cada um de nós, pedras, plantas, animais e humanos somos energia. E ela não se perde, mas está sempre se renovando.

FELIZ ANO NOVO!

Em tempo: o significado do nome Fátima é “a mulher que realizou seus filhos no caminho do conhecimento divino.” Por caminhos desconhecidos, mas traçados antecipadamente pela vida, ela aproximou-se de mim e deixou algo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

RIBAMAR, ESPANTO E POESIA



(imagem do google)

Ninguém se ilude mais com a imprensa. Toda ela - com raríssimas exceções - a serviço de alguma autoridade ou suposta ideologia, deixou de ser o "quarto poder", passando a "primeira vassala". No entanto, tendo acesso à TV paga, pelo menos consegue-se ver uma ou outra discussão mais interessante, menos pasteurizada. É o caso da Globonews - e longe de mim fazer o elogio da emissora! Mas, ao menos, podemos nos emocionar, vez por outra.
Enterneceu-me rever ontem a entrevista concedida a Roberto D'Ávila por José Ribamar Ferreira, o maranhense Ferreira Gullar, ocorrida à época de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras. Figura ímpar, com suas longas madeixas brancas, seu nariz aquilino, seu olhar sereno e sua sábia capacidade de rir de si próprio. Deve ter sido uma enorme surpresa para muitos conhecer um pouco da história de vida e da biografia pública deste poeta, escritor, dramaturgo, tradutor, memorialista, ensaísta e um dos pilares do neoconcretismo brasileiro. 
No seu dizer, tornou-se escritor por acaso, porque seu pai, numa fase difícil da vida - quem não as tem? -, matriculou-o em uma escola profissionalizante, onde, então, percebeu que não levava jeito para ser alfaiate, marceneiro ou qualquer outra coisa. Certo dia, a professora de língua portuguesa pediu uma redação sobre o dia do trabalho, que o menino Ribamar iniciou com a frase "No dia do trabalho, ninguém trabalha". E seguiu escrevendo. Ao retornar os trabalhos dos alunos, a mestra elogiou seu talento para a escrita, que só não obteve nota total por causa de um ou dois errinhos de português. Ribamar pensou: "Quem sabe eu possa ser escritor!..." Por dois anos, estudou com afinco a gramática do nosso idioma e tomou coragem: começou a produzir textos. A partir daí, todos conhecem a história.
Alguns fragmentos da entrevista impressionaram-me muito. O primeiro deles foi a serenidade e, mesmo, o apaziguamento do escritor. Após haver sido um comunista ferrenho, exilado e preso, ao voltar ao país, - solto apenas pela influência diplomática de alguns amigos do exterior -, Ferreira Gullar insinuou estar decepcionado com a nova esquerda brasileira, por motivos óbvios: falta de objetivos, interesses pessoais, resistência cega, surda e muda diante da realidade brasileira. Há quem diga que, em outro momento, o escritor chegou a chamar alguns intelectuais de "esquerda burra". Pode ser apenas folclore, mas o fato é que o homem que vi ao longo da entrevista era um senhorzinho em paz consigo mesmo, sem vontade de polemizar sobre qualquer coisa. Verdade ou não, Ferreira Gullar mudou, como mudamos todos nós, ao longo dos anos. Após resistir por longo tempo à tentativa de sedução da ABL, finalmente aceitou a cadeira de número 37, deixada por Ivan Junqueira, no dia 5 de dezembro de 2014. Tomou assento por meros dois anos, pouco para quem deixou um versátil e robusto contributo à cultura do nosso país. 
Outro momento que me tocou profundamente foi a sinceridade em revelar que seu último poema havia sido escrito em 2009. Justificou: disse que "a poesia é feito do espanto" e que há tempo ele já não se espantava com tantas coisas. Em tempos de vaidade, arrogância e fome de holofotes, no qual muitos escrevem sob encomenda apenas para obterem láureas e luzes, acalmei minha inquietude pela ausência de inspiração que algumas vezes me ocorre, pela falta desse espanto e por não saber criar sob encomenda ou por mero diletantismo. Já havia sentido isto ao ouvir Adélia Prado, outra poeta com quem tenho afinidade por escrever com simplicidade sobre o cotidiano, afirmar que "às vezes olho para uma pedra e só vejo pedra mesmo". Tenho plena consciência que sequer passo perto do talento e da importância de qualquer dos dois; mais uma razão para ter a humildade de reconhecer que a poesia é que me toma e não o contrário.
Sentirei saudade de Ferreira Gullar e de seu espanto. A morte física é inexorável. Mas seu espírito espantado seguirá me inspirando em minhas aventuras com as palavras. 

sábado, 19 de novembro de 2016

AMISTOSO ALDRÁVICO - Jogo poético

(imagem do google)

Antes de tudo, somos amigos. Também somos escritores - poetas, inclusive. Poetas aldravianistas? Somos, os três! Quem somos? José Luiz Foureaux S. Jr., Else Dorotéa Lopes e eu, Angela Cristina Fonseca.
No ano de 2015, resolvemos fazer uma brincadeira, por diversão e, principalmente, com fins didáticos. Pusemo-nos a praticar uma habilidade: escrever aldravias, poemas de até seis versos univocabulares, privilegiando a metonímia em lugar da metáfora, figura de linguagem mais frequentemente usada em poesia. Foi colocado um desafio: um de nós propunha a primeira aldravia e os outros dois "respondiam". Sem tema específico, guiados apenas por nosso gosto e criatividade. Íamos nos alternando, cada vez um de nós o desafiador. A ideia inicial era fazer um livro a seis mãos, mas, no momento, estamos os três envolvidos em outros projetos e decidimos, de comum acordo, fazer o uso que quisermos do material. Eu decidi postar aqui.
Começamos José Luiz e eu. Else juntou-se a nós pouco tempo depois. Assim vou seguir a cronologia do trabalho.

palavra
seu
gosto
papila
e 
papel (ACF)                       som
                                        imagem  
                                        ideia
                                        desenho
                                        do
                                        saber (JLF)
meninas 
Marias
no
longe 
do
céu (ACF)                         Clarice 
                                        manca
                                        na
                                        hora
                                        da 
                                        estrela (JLF)      
Alberto
Álvaro
Ricardo
pessoas
em 
Fernando (ACF)                 Bernardo
                                        mesmo
                                        Fernando
                                        pessoa
                                        a 
                                        mais (JLF)                          Florbela
                                                                                  Fernando
                                                                                  enquanto
                                                                                  Morfeu
                                                                                  não
                                                                                  vem (EDL)
                                           
                                        caudalosas 
                                        águas
                                        da
                                        desrazão
                                        humana
                                        enchente (JLF)    
temporal
urbano
nossa
insensatez
na
enxurrada (ACF)                retalhos
                                        de
                                        algodão
                                        no
                                        céu
                                        azul (JLF)   
bordados
rendas
atavios
prendas
minha 
mãe (ACF)

sombra
na 
parede
negativo
de 
gente (ACF)                      imagem
                                       desejada
                                       sonho
                                       de
                                       existência
                                       espelho  (JLF)                       na
                                                                                   parede
                                                                                   sombras
                                                                                   recitam
                                                                                   cantam
                                                                                   dançam (EDL)    
                                                                                   
                                                                                   queimaram
                                                                                   arbustos
                                                                                   onde
                                                                                   estarão
                                                                                   as
                                                                                   borboletas? (EDL)
borboletas
cigarras
besouros
cinzas
e
pranto (ACF)                     aulas
                                        de
                                        solidão
                                        educação
                                        da
                                        vida (JLF)
cerejas
em
botão
primavera
no
Japão (ACF)                     laranja
                                        na
                                        campanha
                                        verão
                                        na
                                        Espanha (JLF)                     flores
                                                                                   no
                                                                                   beiral
                                                                                   primavera
                                                                                   em
                                                                                   Portugal (EDL)

Há muitas mais. Talvez continuemos nosso saboroso joguinho. E - quem sabe? - depois dessa postagem, mais pessoas se animem a brincar também. Quem se habilita?     
                                       





                                                                                

                                                                          
                 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

APOCALIPSES CONTEMPORÂNEOS


I 
Há alguns meses enviei um poema para concurso literário de uma academia de letras da qual sou membro. Fala de velhos retratos e suas molduras, algo tão obsoleto que a galera conhece apenas de vista. Ou não. Com tanta tecnologia disponível, as imagens vão ficando cada vez mais perfeitas, tal a quantidade de recursos que retocam, desfocam, focam, mudam o cenário e até distorcem o objeto fotografado, entre outras maravilhas. Entendo pouquíssimo de tais engenhocas. Sou analfabyte assumida, mas não ao ponto de de não reconhecer como, em inúmeras áreas do conhecimento, tal progresso é útil e descomplica a vida de muita gente.
II
Mudando um pouco de assunto, liga-se a TV ou lê-se os jornais virtuais e o que se vê são absolutamente as mesmas notícias. Apenas os vieses mudam, de acordo com a linha editorial do veículo.
Esta semana, dois assuntos em especial dominaram as manchetes. Em primeiríssimo lugar, a eleição presidencial nos Estados Unidos, que eles carinhosamente chamam de América. Acho curioso como tal pleito possa interessar tanto os brazucas. Talvez aqueles que lá vivem clandestinamente tenham alguma razão para se preocuparem. Sentem-se acuados, depois do festival de baixaria e mis en scène contra alienígenas, que é como eles nos denominam: US Alliens.
III
Enquanto isso, na terra brasilis , alunos ensandecidos e doutrinados por alguns de seus mestres, ocupam escolas, depredam patrimônio público e complicam a vida de quem passou o ano preparando-se para para o esperado, idolatrado, salve, salve ENEM! Curiosamente, terminado o exame, os revoltosos contra um documento do qual sequer têm conhecimento - por favor, não estou aqui fazendo a apologia da antes PC 241, hoje, no Senado Federal, rebatizada de PEC 55 - desocuparam os prédios. 
IV
Abro parênteses. Quando eu era uma jovem estudante, a hoje odiada reforma do ensino médio, era prática comum. Era  uma beleza: todos escrevíamos muito bem, porque as questões eram abertas e escolhíamos as disciplinas que desejávamos cursar de acordo com a área acadêmica eleita por nós. Os vestibulares, inclusive para as Universidade Federais, eram diferenciados, de acordo com a preferência de cada um: ciências biológicas, exatas, humanas e sociais aplicadas. Aí, veio a reforma do ensino de 1988... Fecho parênteses.
V
Pois enquanto a mídia explorava à exaustão as eleições americanas, o Governador Pezão, no Rio de Janeiro, preparava um pacote de maldades para os cidadãos do seu quintal.
VI 
Aí... chegou a quinta-feira e a seleção brasileira de futebol foi enfrentar os argentinos e um bocado de gente encheu o Mineirão, pagando valores entre R$219 e R$ 400 reais, saindo do estádio com a alma lavada: vingaram-se do vexame dos 7 x 1 contra (ou a favor?) da Alemanha na Copa de 2014.
VII 
Foi esta palavra, VINGANÇA, que me trouxe até aqui. Afirmam os especialistas em Bíblia e Escrituras Sagradas que Joãozinho, o irmão mais amado de Jesus, foi quem escreveu sobre as pragas do Apocalipse, em estado de catarse mediúnica. Obviamente, àquela época, ele não teria como profetizar uma praga contemporânea chamada selfie, palavra derivada de self, que significa EGO. Pois então: nesses tempos de total egolatria, um turista brasileiro, querendo fazer uma selfie à frente de uma imagem de São Miguel Arcanjo, com trezentos anos de idade, derrubou-a, quebrando-lhe as asas. A imagem fazia parte do acervo do Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa há 100 anos.
Estava eu lendo a matéria no facebook e, passando os olhos pelos comentários, deparei com a seguinte frase: "Bem feito! Foi uma boa vingança contra todo o nosso ouro que os portugueses levaram do Brasil..."
Fiquei perplexa, não comentei, nada perguntei sobre esta demonstração de estupidez. Assim sendo não recebi respostas. Termino por aqui. Sem palavras.




quarta-feira, 6 de julho de 2016

INVERNO NAS NUVENS... Cronicurtas

(imagem do Google)

Manhã

Cobertor de nuvens esconde - pudor e desvelo – curvas voluptuosas da serra...

Levanto-me dentro de uma porção do céu, véu fino e nevoento, que envolve casa, jardim, paisagem...

De mansinho, o sol, tímido ainda, vai rompendo o nevoeiro, traçando retas, perpendiculando a luz...

Vento espanta nuvens. Céu de intenso azul invernal. Voo de roupas no varal, festa de cores, bandeirolas de São João...

Leite aquecido, uma baga de baunilha e cacau em pó. O dia ganha calor...

Penachos multicores - e sedentos! – dão rasantes, imergindo seus bicos em bebedouros bromeliáceos...

Barrigão ao sol, camaleoa grávida, assustada, mal se arrasta pelas paredes...

Escassez de alimento cria vínculos, familiaridade. Pássaros e micos chegam aos comedouros e, curiosos, adentram a casa sem cerimônia. Uns entoam árias, pousados num espaldar de cadeira, outros brincam de esconde-esconde com as cortinas de chita...

O vinho, a sopa, pão feito em casa. Depois, a rede, a sesta. Para que mais?

Tarde

Preguiça... Calor gostoso no corpo e pecado. Difícil levantar... Enquanto isso, gralhas e maritacas algazarreiam nas ameixeiras...

Brilhos metálicos, bater frenético de asas e zumbidos reverberam. Beija-flores e abelhas partilham, harmoniosamente, o pólen racionado. Poucas flores...

Com mãos laboriosas, novelos de lã mesclada e agulhas de tecer gesto agasalhos. Vão nascendo xales, cachecóis, meias, mimos...

Em breve terei que substituir meu velho caderno, já tão gasto, cofre de minhas palavras e sentimentos. Emoções que escorrem da alma pelos dedos. Fetiche. Só depois, bem depois, tudo será encaminhado para a máquina e suas engenhocas.

Tento escrever os poemas certos com meus dedos tortos. Acabam saindo como têm que ser...

Às vezes me canso. Outras me entristeço. Quando exulto, vou para a cozinha, invento delícias. Ou saio a plantar, a pôr as mãos na terra...

Tem dias que fico olhando para o teto, de madeira bonita, e devaneio. Já tive uma bela voz, como minha mãe. Voz de anjo. Hoje canto como Angela mesmo, o tom um pouco mais grave. Na canção e na vida.

Há anos, corujas suindara fazem ninho debaixo do nosso telhado. É só escurecer e soltam seu piado soturno, saindo à caça. Na imaginação de um amigo gaucho, assemelham-se a fantasmas, brancas contra o breu da noite.

Lume aceso, água fervente extrai aroma e sabor das ervas frescas em infusão. Criadas na porta de casa, perfumam o ar. Ao redor da mesa, da broa de fubá, do pão de queijo, as atividades do dia viram histórias... 

Aqui na serra há sossego e solidão. Necessários. Cada um faz o que quer e o que gosta. E também o que é preciso. Há espaço para deixar viajar a imaginação.... Indiscutivelmente, somos um coletivo.

Noite

Espiar estrelas, paixão antiga. Se há lua, o contorno da serra afigura-se como proteção: aqui se está em paz. O frio arrepia e o céu volta a descer, encobrindo tudo. Hora de sonhar dormindo. Ou o contrário...

domingo, 15 de maio de 2016

O REI E OS AMIGOS DO REI

(imagem do google)

No início da década de 1970 vivi na cidade do Rio de Janeiro. Trabalhava como tradutora e fazia uns “frilas” para a revista Rolling Stone, à época sob a batuta de Luiz Carlos Maciel. Conheci gente interessante: Jards Macalé, Novos Baianos, Sdenek Hampl, Zózimo Bulbul, Jorge Mautner, o insipiente grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone... Tempos lisérgicos, embora repressivos e duros. Certa noite fui ver a peça “As três irmãs”, de Anton Tchekhov, com o Grupo Oficina, sob a direção do bruxo louco e genial José Celso Martinez Corrêa. Já havia lido sobre a peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, encenada pelo mesmo grupo e o mesmo diretor e fiquei interessadíssima. O texto de Tchekhov, grave, pedia figurino austero e cenário econômico, quase sombrio. Produção impecável. O final, no entanto, foi apoteótico. Enquanto o elenco desmontava a cena, José Celso pendurou-se em um arco, preso ao teto por uma corda, e pos-se a balançar-se sobre o público dizendo: “Gente, isso é tudo mentira! É tudo teatro!” A plateia veio à loucura.
A memória traz-me de volta esses fatos à reflexão neste momento porque, além de ter que lidar com uma censura impiedosa e arbitrária, produtores da cultura, àquela época, tinham de buscar a viabilização de seus projetos por contra própria, junto aos poucos agentes fomentadores disponíveis.
Na semana passada, com Michel Temer assumindo o governo interinamente, houve espanto e mal-estar pela fusão dos Ministérios da Educação e da Cultura, trazendo de volta o antigo MEC. A reação foi imediata: artistas e  intelectuais, sobretudo de esquerda, se juntaram em um abraço simbólico no prédio e enviaram um manifesto a Temer, cobrando a volta do MinC. Ele, cedendo à pressão, decidiu, então, criar uma Secretaria de Cultura ligada à Presidência, porém, sem status de ministério. A imprensa já especula a respeito do nome que irá comandá-la, talvez uma mulher, o que atenderia a duas reivindicações emergentes.
Duas questões se me impõem e preocupam e quero partilhá-las. A primeira é: quem será o/a secretário/a da cultura? Dependendo de quem ocupe o cargo, poderemos ter que enfrentar uma tentativa da esquerda radical e retrógrada de lançar, de novo, seus tentáculos e reaparelhar o Estado brasileiro com seus quadros. A segunda é, em parte uma consequência da primeira: ressuscitar o MinC para que um mesmo grupo de artistas e intelectuais, a maioria com popularidade suficiente e capacidade para obter recursos da iniciativa privada, ou, até mesmo, de bancar seus projetos, continue a viver – e a enriquecer – sob as asas do Estado, só por serem “amigos do rei”, em detrimento dos verdadeiros órfãos da cultura, aqueles que, de fato, necessitam dos subsídios para tocarem projetos de relevância indiscutível para o Brasil. Estes ficarão, maquiavelicamente, à míngua.
Se assim for, veremos alguém pendurar-se em um arco, preso no alto por uma corda, a balançar sobre nós, cidadãos brasileiros, e a repetir, freneticamente: “Gente, isso é tudo mentira! É tudo teatro!”

terça-feira, 26 de abril de 2016

A PROPÓSITO DE VÍRUS E CUSPE


Há cerca de um ano venho cuidando mais de mim. Primeiro, um desvio da coluna lombar, com muita dor. Sob controle, no momento. Depois, uma picadinha invisível do famoso Aedes aegypti e seu vírus da dengue, introduzido em mim sem quaisquer preliminares ou cerimônia. Mais dor, uma febrícola, inapetência e pintas vermelhas espalhadas por algumas partes do corpo. Tais sintomas, assim como vieram, foram-se, sem aviso prévio. Agora pelejo com uma gripe alérgica: a umidade relativa do ar em Beagá está muito abaixo dos índices que seriam considerados ideais pela OMS. Durante minha vida sempre a mil por hora, com tantas atribuições e desejos a saciar, plenamente fullgas, acabei não achando tempo para fazer um curso preparatório de envelhecimento. E me descuidei. Resultado: fui obrigada a desligar algumas tomadas e dar uma discreta pisada no freio.
Bom também. Venho lendo e relendo autores de que gosto muito, bem como escrevendo outro tanto, menos para publicar e mais como atividade terapêutica. Hoje, no entanto, peguei papel e lápis - eu costumo trabalhar assim, é quase um fetiche, para só depois o texto ir para a máquina. E resolvi partilhar. 
Tudo por causa da palavra viralizar e seu novo campo semântico. Saio muito pouco de casa, mesmo não me enquadrando no modelito "bela, recatada e do lar". Preguiça mesmo e uma vaga misantropia. Daí, que meu passatempo favorito fica sendo mesmo a internet. É neste vasto território que os termos viral e viralização adquiriram novo significado e tornaram-se parte integrante da conversa no ciberespaço. Quando algo aparece insistentemente nas redes, diz-se "ih, viralizou!" E existem mecanismos invisíveis para medir a ocorrência. É tudo tão rápido que o viral de ontem é logo substituído por outro, tal a velocidade de sua, digamos, mutação. 
George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, escritor, jornalista e ensaísta político inglês, que viveu no início do século XX e flertou com o anarquismo e o socialismo democrático, escreveu duas obras proféticas. Em 1984, escrito em 1948 - ele inverteu os algarismos - trata do totalitarismo e da quebra de privacidade de forma ficcional, criando um sinistro tirano, chamado de Big Brother, o Grande Irmão, entidade invisível e quase abstrata, que controlava tudo graças às teletelas, em cenário fictício chamado Oceânia. O autor foi capaz de prever a realidade tal como a conhecemos hoje, onde qualquer de nós pode "espionar" todo mundo. Em seu outro livro, Animal Farm (A Revolução dos Bichos), Orwell conta a história de uma granja liderada pelo Sr. Jones. Cansados dos maus tratos, os animais decidem fazer uma revolução, liderados pelo Porco Maior. Segundo essa criatura, "todos os animais são iguais entre si". Porém, "uns são mais iguais que os outros". A partir daí, os porcos passam a liderar a granja com patas de ferro e instala-se uma nova escravidão. Emblemática a escolha dos porcos como dominadores. Afinal, não é assim que vimos enxergando nossa "casta" política?  
Constata-se, no dia a dia, a intolerância chegando a seus aspectos mais extremos. No hemisfério norte, o Estado Islâmico vem dizimando pessoas, animado por um ódio supostamente religioso. Hoje, pela manhã, ouvi a notícia de que a Suécia encontra-se em estado de alerta máximo sob a ameaça do terror.
Aqui nos trópicos, mais exatamente no Brasil, percebe-se uma polarização que vem num crescendo e se manifesta, declaradamente, em locais públicos. De um lado, um grupo belicista, que fala abertamente em guerra, para não ter que abdicar do projeto de poder do qual se beneficia. Do outro, gente indignada, que resolveu sair do armário para o confronto. Petralhas versus coxinhas, como denominam uns aos outros.
Recentemente, depois de certo deputado, em momento de profunda burrice, manifestar abertamente sua admiração por um torturador, num processo sério de votação do impeachment da presidente do país, um colega de parlamento, seu desafeto, não teve dúvidas: cuspiu na sua cara, em vergonhosa e explícita demonstração de "falta de decoro parlamentar". De ambos, diga-se. A cena viralizou.
Quase que imediatamente depois, novo episódio: em vídeo que teve milhões de visualizações na internet, ator global e alguns clientes de um restaurante iniciam um bate-boca patético, pontilhado por palavras chulas e desaforos pesados de ambos os lados. De novo, petralhas x coxinhas. Não deu outra: mais cusparada no rosto e no prato dos supostos "ofensores". Partindo de quem? Do tal ator, a quem foram concedidos, pela emissora onde trabalha, trinta minutos em programa muito popular nas tardes de domingo, em canal de tv aberto, para um mea culpa que não houve. Viralizou outra vez, gerando indignação mas, também, muita piada.
Aí eu me pergunto: o que virá depois do cuspe?!?! Na dúvida, passarei a sair de casa de burka... 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

SANTINHO DO BEM


(imagem do google)

Há algum tempo ouço dizer que "o casamento é uma instituição falida". Pessoalmente, não acredito. A instituição  como a conhecemos desde sempre andou mesmo mudando de cara, de conceito, de moldura. No entanto, o casamento continua aí, firme e forte, exatamente porque seus protagonistas mudaram de atitude. Para além das outras instituições, religiosas e jurídicas, os interessados vêm lutando para formalizar suas uniões cada vez mais estáveis. O Estatuto da Família, para lá de conservador, recém- aprovado na Câmara, não intimida os apaixonados de todas as tintas e nuances. Apoiam-se eles na jurisprudência para legalizar desde o acasalamento até a adoção de filhos. Ou seja, o que já existe de fato passa a ser de direito.

Não é minha pretensão levantar bandeiras. O tema me ocorre porque hoje é 14 de fevereiro, dia no qual, em vários cantos do mundo, relembra-se a morte de São Valentim, suposto mártir cristão que provavelmente teria vivido durante o século III. Conta a lenda que o então imperador de Roma, Cláudio II, havia proibido os casamentos, sob a alegação de que homens solteiros e sem responsabilidades familiares seriam melhores soldados. Valentim, ignorando a ordem do chefe de estado romano, passou a conceder as bênçãos matrimoniais a jovens noivos na clandestinidade. Por esse crime, foi preso e decapitado por volta do ano de 270. Na prisão, caiu de amores pela filha do carcereiro, a quem enviou uma mensagem assinada, declarando-se, antes de sua execução.

Verdade ou mentira, com o correr do tempo, a data começou a ser comemorada não apenas pelos enamorados, como também pelos amigos, que passaram a trocar cartões e mensagens - herança de Valentim? -, bem como presentes, em geral doces e chocolate, envolvidos em embalagens decoradas com corações.

Mesmo com toda a paixão, amizade e doçura que marcam o Dia de São Valentim, o santo foi esquecido pela Igreja e, mais tarde, banido do panteão do cristianismo. Por esse motivo, no Brasil, Valentim foi substituído por Antônio, conhecido como "o casamenteiro", e o Dia dos Namorados passou a ser 12 de junho, véspera do dia dedicado ao santo no calendário católico. Para variar, com a mesma intenção de aquecer o comércio, depois do Carnaval, da Páscoa e do Dia das Mães.

Porém, como "o amor está no ar" mundo afora, feliz Valentine's Day para todos!