quarta-feira, 6 de julho de 2016

INVERNO NAS NUVENS... Cronicurtas

(imagem do Google)

Manhã

Cobertor de nuvens esconde - pudor e desvelo – curvas voluptuosas da serra...

Levanto-me dentro de uma porção do céu, véu fino e nevoento, que envolve casa, jardim, paisagem...

De mansinho, o sol, tímido ainda, vai rompendo o nevoeiro, traçando retas, perpendiculando a luz...

Vento espanta nuvens. Céu de intenso azul invernal. Voo de roupas no varal, festa de cores, bandeirolas de São João...

Leite aquecido, uma baga de baunilha e cacau em pó. O dia ganha calor...

Penachos multicores - e sedentos! – dão rasantes, imergindo seus bicos em bebedouros bromeliáceos...

Barrigão ao sol, camaleoa grávida, assustada, mal se arrasta pelas paredes...

Escassez de alimento cria vínculos, familiaridade. Pássaros e micos chegam aos comedouros e, curiosos, adentram a casa sem cerimônia. Uns entoam árias, pousados num espaldar de cadeira, outros brincam de esconde-esconde com as cortinas de chita...

O vinho, a sopa, pão feito em casa. Depois, a rede, a sesta. Para que mais?

Tarde

Preguiça... Calor gostoso no corpo e pecado. Difícil levantar... Enquanto isso, gralhas e maritacas algazarreiam nas ameixeiras...

Brilhos metálicos, bater frenético de asas e zumbidos reverberam. Beija-flores e abelhas partilham, harmoniosamente, o pólen racionado. Poucas flores...

Com mãos laboriosas, novelos de lã mesclada e agulhas de tecer gesto agasalhos. Vão nascendo xales, cachecóis, meias, mimos...

Em breve terei que substituir meu velho caderno, já tão gasto, cofre de minhas palavras e sentimentos. Emoções que escorrem da alma pelos dedos. Fetiche. Só depois, bem depois, tudo será encaminhado para a máquina e suas engenhocas.

Tento escrever os poemas certos com meus dedos tortos. Acabam saindo como têm que ser...

Às vezes me canso. Outras me entristeço. Quando exulto, vou para a cozinha, invento delícias. Ou saio a plantar, a pôr as mãos na terra...

Tem dias que fico olhando para o teto, de madeira bonita, e devaneio. Já tive uma bela voz, como minha mãe. Voz de anjo. Hoje canto como Angela mesmo, o tom um pouco mais grave. Na canção e na vida.

Há anos, corujas suindara fazem ninho debaixo do nosso telhado. É só escurecer e soltam seu piado soturno, saindo à caça. Na imaginação de um amigo gaucho, assemelham-se a fantasmas, brancas contra o breu da noite.

Lume aceso, água fervente extrai aroma e sabor das ervas frescas em infusão. Criadas na porta de casa, perfumam o ar. Ao redor da mesa, da broa de fubá, do pão de queijo, as atividades do dia viram histórias... 

Aqui na serra há sossego e solidão. Necessários. Cada um faz o que quer e o que gosta. E também o que é preciso. Há espaço para deixar viajar a imaginação.... Indiscutivelmente, somos um coletivo.

Noite

Espiar estrelas, paixão antiga. Se há lua, o contorno da serra afigura-se como proteção: aqui se está em paz. O frio arrepia e o céu volta a descer, encobrindo tudo. Hora de sonhar dormindo. Ou o contrário...

domingo, 15 de maio de 2016

O REI E OS AMIGOS DO REI

(imagem do google)

No início da década de 1970 vivi na cidade do Rio de Janeiro. Trabalhava como tradutora e fazia uns “frilas” para a revista Rolling Stone, à época sob a batuta de Luiz Carlos Maciel. Conheci gente interessante: Jards Macalé, Novos Baianos, Sdenek Hampl, Zózimo Bulbul, Jorge Mautner, o insipiente grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone... Tempos lisérgicos, embora repressivos e duros. Certa noite fui ver a peça “As três irmãs”, de Anton Tchekhov, com o Grupo Oficina, sob a direção do bruxo louco e genial José Celso Martinez Corrêa. Já havia lido sobre a peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, encenada pelo mesmo grupo e o mesmo diretor e fiquei interessadíssima. O texto de Tchekhov, grave, pedia figurino austero e cenário econômico, quase sombrio. Produção impecável. O final, no entanto, foi apoteótico. Enquanto o elenco desmontava a cena, José Celso pendurou-se em um arco, preso ao teto por uma corda, e pos-se a balançar-se sobre o público dizendo: “Gente, isso é tudo mentira! É tudo teatro!” A plateia veio à loucura.
A memória traz-me de volta esses fatos à reflexão neste momento porque, além de ter que lidar com uma censura impiedosa e arbitrária, produtores da cultura, àquela época, tinham de buscar a viabilização de seus projetos por contra própria, junto aos poucos agentes fomentadores disponíveis.
Na semana passada, com Michel Temer assumindo o governo interinamente, houve espanto e mal-estar pela fusão dos Ministérios da Educação e da Cultura, trazendo de volta o antigo MEC. A reação foi imediata: artistas e  intelectuais, sobretudo de esquerda, se juntaram em um abraço simbólico no prédio e enviaram um manifesto a Temer, cobrando a volta do MinC. Ele, cedendo à pressão, decidiu, então, criar uma Secretaria de Cultura ligada à Presidência, porém, sem status de ministério. A imprensa já especula a respeito do nome que irá comandá-la, talvez uma mulher, o que atenderia a duas reivindicações emergentes.
Duas questões se me impõem e preocupam e quero partilhá-las. A primeira é: quem será o/a secretário/a da cultura? Dependendo de quem ocupe o cargo, poderemos ter que enfrentar uma tentativa da esquerda radical e retrógrada de lançar, de novo, seus tentáculos e reaparelhar o Estado brasileiro com seus quadros. A segunda é, em parte uma consequência da primeira: ressuscitar o MinC para que um mesmo grupo de artistas e intelectuais, a maioria com popularidade suficiente e capacidade para obter recursos da iniciativa privada, ou, até mesmo, de bancar seus projetos, continue a viver – e a enriquecer – sob as asas do Estado, só por serem “amigos do rei”, em detrimento dos verdadeiros órfãos da cultura, aqueles que, de fato, necessitam dos subsídios para tocarem projetos de relevância indiscutível para o Brasil. Estes ficarão, maquiavelicamente, à míngua.
Se assim for, veremos alguém pendurar-se em um arco, preso no alto por uma corda, a balançar sobre nós, cidadãos brasileiros, e a repetir, freneticamente: “Gente, isso é tudo mentira! É tudo teatro!”

terça-feira, 26 de abril de 2016

A PROPÓSITO DE VÍRUS E CUSPE


Há cerca de um ano venho cuidando mais de mim. Primeiro, um desvio da coluna lombar, com muita dor. Sob controle, no momento. Depois, uma picadinha invisível do famoso Aedes aegypti e seu vírus da dengue, introduzido em mim sem quaisquer preliminares ou cerimônia. Mais dor, uma febrícola, inapetência e pintas vermelhas espalhadas por algumas partes do corpo. Tais sintomas, assim como vieram, foram-se, sem aviso prévio. Agora pelejo com uma gripe alérgica: a umidade relativa do ar em Beagá está muito abaixo dos índices que seriam considerados ideais pela OMS. Durante minha vida sempre a mil por hora, com tantas atribuições e desejos a saciar, plenamente fullgas, acabei não achando tempo para fazer um curso preparatório de envelhecimento. E me descuidei. Resultado: fui obrigada a desligar algumas tomadas e dar uma discreta pisada no freio.
Bom também. Venho lendo e relendo autores de que gosto muito, bem como escrevendo outro tanto, menos para publicar e mais como atividade terapêutica. Hoje, no entanto, peguei papel e lápis - eu costumo trabalhar assim, é quase um fetiche, para só depois o texto ir para a máquina. E resolvi partilhar. 
Tudo por causa da palavra viralizar e seu novo campo semântico. Saio muito pouco de casa, mesmo não me enquadrando no modelito "bela, recatada e do lar". Preguiça mesmo e uma vaga misantropia. Daí, que meu passatempo favorito fica sendo mesmo a internet. É neste vasto território que os termos viral e viralização adquiriram novo significado e tornaram-se parte integrante da conversa no ciberespaço. Quando algo aparece insistentemente nas redes, diz-se "ih, viralizou!" E existem mecanismos invisíveis para medir a ocorrência. É tudo tão rápido que o viral de ontem é logo substituído por outro, tal a velocidade de sua, digamos, mutação. 
George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, escritor, jornalista e ensaísta político inglês, que viveu no início do século XX e flertou com o anarquismo e o socialismo democrático, escreveu duas obras proféticas. Em 1984, escrito em 1948 - ele inverteu os algarismos - trata do totalitarismo e da quebra de privacidade de forma ficcional, criando um sinistro tirano, chamado de Big Brother, o Grande Irmão, entidade invisível e quase abstrata, que controlava tudo graças às teletelas, em cenário fictício chamado Oceânia. O autor foi capaz de prever a realidade tal como a conhecemos hoje, onde qualquer de nós pode "espionar" todo mundo. Em seu outro livro, Animal Farm (A Revolução dos Bichos), Orwell conta a história de uma granja liderada pelo Sr. Jones. Cansados dos maus tratos, os animais decidem fazer uma revolução, liderados pelo Porco Maior. Segundo essa criatura, "todos os animais são iguais entre si". Porém, "uns são mais iguais que os outros". A partir daí, os porcos passam a liderar a granja com patas de ferro e instala-se uma nova escravidão. Emblemática a escolha dos porcos como dominadores. Afinal, não é assim que vimos enxergando nossa "casta" política?  
Constata-se, no dia a dia, a intolerância chegando a seus aspectos mais extremos. No hemisfério norte, o Estado Islâmico vem dizimando pessoas, animado por um ódio supostamente religioso. Hoje, pela manhã, ouvi a notícia de que a Suécia encontra-se em estado de alerta máximo sob a ameaça do terror.
Aqui nos trópicos, mais exatamente no Brasil, percebe-se uma polarização que vem num crescendo e se manifesta, declaradamente, em locais públicos. De um lado, um grupo belicista, que fala abertamente em guerra, para não ter que abdicar do projeto de poder do qual se beneficia. Do outro, gente indignada, que resolveu sair do armário para o confronto. Petralhas versus coxinhas, como denominam uns aos outros.
Recentemente, depois de certo deputado, em momento de profunda burrice, manifestar abertamente sua admiração por um torturador, num processo sério de votação do impeachment da presidente do país, um colega de parlamento, seu desafeto, não teve dúvidas: cuspiu na sua cara, em vergonhosa e explícita demonstração de "falta de decoro parlamentar". De ambos, diga-se. A cena viralizou.
Quase que imediatamente depois, novo episódio: em vídeo que teve milhões de visualizações na internet, ator global e alguns clientes de um restaurante iniciam um bate-boca patético, pontilhado por palavras chulas e desaforos pesados de ambos os lados. De novo, petralhas x coxinhas. Não deu outra: mais cusparada no rosto e no prato dos supostos "ofensores". Partindo de quem? Do tal ator, a quem foram concedidos, pela emissora onde trabalha, trinta minutos em programa muito popular nas tardes de domingo, em canal de tv aberto, para um mea culpa que não houve. Viralizou outra vez, gerando indignação mas, também, muita piada.
Aí eu me pergunto: o que virá depois do cuspe?!?! Na dúvida, passarei a sair de casa de burka... 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

SANTINHO DO BEM


(imagem do google)

Há algum tempo ouço dizer que "o casamento é uma instituição falida". Pessoalmente, não acredito. A instituição  como a conhecemos desde sempre andou mesmo mudando de cara, de conceito, de moldura. No entanto, o casamento continua aí, firme e forte, exatamente porque seus protagonistas mudaram de atitude. Para além das outras instituições, religiosas e jurídicas, os interessados vêm lutando para formalizar suas uniões cada vez mais estáveis. O Estatuto da Família, para lá de conservador, recém- aprovado na Câmara, não intimida os apaixonados de todas as tintas e nuances. Apoiam-se eles na jurisprudência para legalizar desde o acasalamento até a adoção de filhos. Ou seja, o que já existe de fato passa a ser de direito.

Não é minha pretensão levantar bandeiras. O tema me ocorre porque hoje é 14 de fevereiro, dia no qual, em vários cantos do mundo, relembra-se a morte de São Valentim, suposto mártir cristão que provavelmente teria vivido durante o século III. Conta a lenda que o então imperador de Roma, Cláudio II, havia proibido os casamentos, sob a alegação de que homens solteiros e sem responsabilidades familiares seriam melhores soldados. Valentim, ignorando a ordem do chefe de estado romano, passou a conceder as bênçãos matrimoniais a jovens noivos na clandestinidade. Por esse crime, foi preso e decapitado por volta do ano de 270. Na prisão, caiu de amores pela filha do carcereiro, a quem enviou uma mensagem assinada, declarando-se, antes de sua execução.

Verdade ou mentira, com o correr do tempo, a data começou a ser comemorada não apenas pelos enamorados, como também pelos amigos, que passaram a trocar cartões e mensagens - herança de Valentim? -, bem como presentes, em geral doces e chocolate, envolvidos em embalagens decoradas com corações.

Mesmo com toda a paixão, amizade e doçura que marcam o Dia de São Valentim, o santo foi esquecido pela Igreja e, mais tarde, banido do panteão do cristianismo. Por esse motivo, no Brasil, Valentim foi substituído por Antônio, conhecido como "o casamenteiro", e o Dia dos Namorados passou a ser 12 de junho, véspera do dia dedicado ao santo no calendário católico. Para variar, com a mesma intenção de aquecer o comércio, depois do Carnaval, da Páscoa e do Dia das Mães.

Porém, como "o amor está no ar" mundo afora, feliz Valentine's Day para todos! 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

ATÉ QUE ENFIM

(imagem do google)

Biografias autorizadas em geral obedecem a certos cânones, dentre eles o elogio - ou a defesa! - do biografado, imortalizando-o e elevando-o à categoria de mito, a pairar acima de nós, pobres mortais sem qualquer notabilidade. Convenhamos, no entanto, que tais sujeitos e atores da História são seres humanos e, como tal, carregam a sombra e a luz dentro de si. Aqui interessa-me a luz.
Não sou historiadora, nem tampouco especialista em figuras reconhecidamente notáveis. Com a necessária humildade, falo do que conheço, do que já li a respeito, do que estudei nos livros de História do Brasil, embora sabendo que alguns deles apresentam a realidade distorcida, no afã de inventar heróis.
Sinto-me mais constrangida, porém, ao falar do carnaval, festa que ainda goza de muito prestígio e alimenta a indústria turística nacional, supostamente trazendo divisas para nossa esgarçada e infeliz economia. Aliás, há setores para os quais não parece haver crise nesse país surreal. Um deles é a poderosa LIESA - Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, entidade que parece pairar acima do bem e do mal e, ainda que não assumidamente, injeta dinheiro da contravenção naquelas agremiações, do mesmo modo como movimenta o crime organizado, o turismo sexual e, de quebra, provê polpudos recursos materiais aos conglomerados de comunicação de massa. E lava dinheiro, muito dinheiro. As lavanderias funcionam a topo pano nessa época e ao longo do ano. Há aí uma reprodução da disputa pelo poder nos morros cariocas, que se assenta sobre a ganância, a vaidade e o delírio da ostentação.
Não posso, porém, mineira que sou, ignorar que, pela primeira vez, na história orgíaca do carnaval, alguém finalmente se lembre de homenagear aquele que dá nome à avenida onde se realizam os desfiles: Cândido José de Araújo Viana, o Marquês de Sapucaí, nascido em 1793 no município de Nova Lima, no passado Congonhas do Sabará, uma das regiões de mineração aurífera das Gerais. Bacharel em Direito, Araújo Viana foi político atuante no período final da monarquia, escritor e preceptor de D. Pedro II, Príncipe Regente, mais tarde Imperador do Brasil. Foi, ainda, tutor da Princesa Isabel de Bragança, conhecida como a Redentora, cujo grande feito foi promulgar a Lei Áurea, abolindo a escravatura no país. Recebeu ele inúmeros títulos ao longo de sua vida e carreira, inclusive o de marquês.  
Para mim, entretanto, seu maior mérito se traduz na educação esmerada que proporcionou ao menino Pedro, monarca brasileiro. Conhecedora da biografia de sua mãe, a Princesa D. Leopoldina de Habsburgo, Arquiduquesa de Áustria e primeira Imperatriz Consorte do Brasil, suponho que a herança genética de tão culta e admirável mulher foi o solo fértil para que, mais tarde, o trabalho de semeadura do marquês produzisse grandes frutos. D. Pedro II é lembrado pela alcunha de "O Magnânimo", "um erudito que estabeleceu uma reputação como um vigoroso patrocinador do conhecimento , cultura e ciências"(Wikipedia) em nosso país, o qual tanto amou como membro do ramo brasileiro da casa de Bragança. Graças à orientação segura de Sapucaí, Pedro II cresceu para ser menos um monarca e mais um homem com profundo senso de dever e amor ao Brasil e ao seu povo. Destituído por um golpe de estado, viveu em exílio na Europa, onde veio a falecer. Mas, algum tempo após sua morte, sua reputação foi resgatada e seus restos mortais trazidos de volta ao Brasil como os de um herói nacional.
A despeito do que os desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro tragam a reboque de seu sucesso como espetáculo visual, desconsiderando, pois, a exibição de luxúria, a utilização de dinheiro sujo e a disputa pelo poder, o enredo "Mineirinho genial! Nova Lima cidade natal - Marquês de Sapucaí - o poeta imortal" trazido para o sambódromo pelo G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis é uma homenagem tardia a esse mineiro digno de nota por sua contribuição importante, embora pouco conhecida, para a história e a cultura de Minas e do Brasil. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

ANO: NOVO?

(imagem do google)

2016. Ano de Oxalá, orixá maior das religiões de matriz africana, que corresponde a Jesus nas religiões cristãs. De acordo com o horóscopo chinês, este é também o ano do Macaco de Fogo. Conheço pouco sobre esses dois sistemas de crenças, mas é fato que previsões fazem parte dos ritos de passagem deste momento. Maya. Nossa humana ilusão de poder controlar o tempo.
Para a numerologia, considerada por seus estudiosos como ciência e arte, este é um ano 9. Pitágoras de Samos, filósofo e matemático grego, afirmava, por volta de 632 a.C., que “a evolução é a lei da vida; o número é a lei do universo; e a unidade é a lei de Deus”. Atribui-se a ele o fundamento desse sistema que procura desvendar o universo e seus mistérios. Antigo é, também, o conhecimento cabalístico sobre os números e seu significado na compreensão do mundo e do homem. Mas, o que quer dizer o 9?
Em essência, o número 9 – soma dos algarismos de 2016 – refere-se à COMPREENSÃO. Suas palavras-chave são: realização, universalidade, compaixão. Dentre suas características favoráveis temos amor universal, tolerância, fé. E dentre as desfavoráveis, sacrifício, fanatismo e decepção. É na tensão entre estas tendências opostas que o homem deverá encontrar o equilíbrio para compreender sua realidade, tendo como missão superar-se e aprender a ser compassivo.
De acordo com a cabala, o símbolo do 9 são dois triângulos entrelaçados, que representam Deus descendo à Terra e o Homem elevando-se ao Céu.  Astrologicamente, relaciona-se a Netuno e Marte, planetas da curiosidade e do entendimento. Os seres humanos estarão mais intuitivos para compreender que o universo opera em círculos e ciclos. Por esta razão, tomarão a consciência de que estão interligados a tudo que existe, sendo, portanto, criadores e atores da realidade, sua e dos outros. É um tempo de assumir responsabilidade pela consequência de suas ações sobre o coletivo. Aqueles que agirem em desacordo com estes princípios, vivenciarão o fim do seu ciclo de domínio, que corresponde ao 8 e se refere ao PODER.
Este será, também, um ano solar. A claridade porá tudo a mostra, nada ficará oculto. A turbulência daí decorrente deverá ser superada com paciência, porque o objetivo é que tudo se aclare para que seja feita a limpeza necessária.
O arcano 9 do tarô é o Ermitão, a figura de um velho apoiado em um bastão e carregando em uma das mãos, a direita, um lume aceso, imagem que representa o homem sábio. Simbolicamente, ele ilumina seus caminhos com a luz da inteligência e do discernimento. Usa o bastão para apoiar-se, o que simboliza a prudência. É o Mestre, o Iluminado, aquele que atingiu a perfeição, abandonando o apego obsessivo à matéria.
A despeito de todo o noticiário que prevê um período carregado de negatividade para 2016, é possível perceber alguma luz em meio à escuridão.  É uma crença consolidada pela história e pela experiência que todo período de iluminação é precedido por excessos e desânimo. Nossa passagem pelo planeta demonstra que o universo, realmente, opera em ciclos. Apesar de tudo, vale a pena ter esperança. E fé.    

sábado, 21 de novembro de 2015

LOUCURA CRÔNICA


Uma crônica é, a rigor, um modelo de texto no qual, geralmente, o autor expõe suas impressões, seu ponto de vista sobre determinado assunto, tendo, inclusive, liberdade para exprimir-se através de seu estilo próprio e, na maioria das vezes, de acordo com suas convicções.
Ontem, num insight - que é próximo de um orgasmo! - percebi que, neste momento, tenho mais perguntas sem resposta que, propriamente, opiniões. Encontro-me aturdida, como a maioria das pessoas que conheço. Por esse motivo, aqui estou para, terapeuticamente, partilhar tais questões com amigos e leitores. Não tenho a pretensão e, sequer, a ilusão de que abordarei todas as nossas angústias. Apenas acredito que haja mais gente preocupada com alguns dos meus porquês. Vamos a eles, pois.
Por que continuamos a "crescer e nos multiplicar" como se o planeta pudesse suportar um contingente cada vez maior de indivíduos? Por que estamos cada vez menos "humanos" e nos tornando meros apêndices das engenhocas que criamos? Por que, na maioria das vezes, somos solidários e compassivos apenas diante de catástrofes? Por que não somos inclusivos com idosos, pessoas com deficiência, homossexuais e tantos outros párias sociais? Por que ainda temos trabalho infantil e trabalho escravo no país? Por que ainda somos lenientes com pedofilia, estupro, prostituição e outros abusos e mazelas, desde que longe dos nossos "quintais"? Por que queremos todos os direitos para nós e os nossos mais próximos e exigimos os deveres apenas para os outros? Por que justificamos as nossas pequenas "contravenções" diárias a partir da impunidade alheia? Por que continuamos a votar se não acreditamos mais naqueles que se perpetuam no "poder"? E por que os empoderamos? Por que nossos políticos são chamados de "autoridades" quando, na realidade, são servidores públicos, remunerados com o dinheiro do contribuinte? Por que tantos privilégios, como aposentadorias especiais, cartões corporativos, imunidade parlamentar, isenção de impostos e sei lá que mais? Por que o dinheiro do contribuinte é chamado de "erário público"? Por que o crime não é punido? Por que quem tem renda sonega imposto e quem trabalha e recebe salário é taxado na fonte? Por que a remuneração do aposentado do setor privado é chamado de "benefício"? E por que é regulado pelos poderes executivo e legislativo, se é fruto do recolhimento compulsório de um percentual do salário mensal daquele que trabalha e de seu empregador? Por que a corrupção virou uma instituição nacional faz tempo? E por que nunca reagimos a ela?  Ou ainda, por que pactuamos com ela por mero comodismo? Por que nossas manifestações culturais legítimas vêm sendo dilapidadas pelo mau gosto subsidiado, de apelo fácil e descartável? Por que a grande imprensa é, invariavelmente, vassala do poder? E por que a imoralidade e a amoralidade vêm se tornando um novo paradigma nacional? Por que saúde, educação e segurança nunca foram prioridades na agenda da administração pública? Por que as Igrejas se tornaram superestruturas sociais milionárias, comprometidas com a alienação de seus seguidores, conhecidos como "fiéis"? Por que, a cada dia, cresce o número de jovens desamparados e desencantados, que aderem a grupos radicais em busca de um "ideal de vida", ainda que seja pelo caminho da violência? Por que as grandes potências não acabam, de fato, com o terror? E as nações emergentes com o crime organizado? Por que uma crise hídrica mundial? Por que a fome dizimando milhares? Por que a manutenção teimosa de modelos econômicos falidos e perversos? Para que essa célere caminhada em direção a uma hecatombe planetária? E por que nunca se esgotam os porquês?

Nota: todas as aspas não são meros e indigentes recursos literários, mas se justificam: a ironia é a minha tônica.