sábado, 21 de novembro de 2015

LOUCURA CRÔNICA


Uma crônica é, a rigor, um modelo de texto no qual, geralmente, o autor expõe suas impressões, seu ponto de vista sobre determinado assunto, tendo, inclusive, liberdade para exprimir-se através de seu estilo próprio e, na maioria das vezes, de acordo com suas convicções.
Ontem, num insight - que é próximo de um orgasmo! - percebi que, neste momento, tenho mais perguntas sem resposta que, propriamente, opiniões. Encontro-me aturdida, como a maioria das pessoas que conheço. Por esse motivo, aqui estou para, terapeuticamente, partilhar tais questões com amigos e leitores. Não tenho a pretensão e, sequer, a ilusão de que abordarei todas as nossas angústias. Apenas acredito que haja mais gente preocupada com alguns dos meus porquês. Vamos a eles, pois.
Por que continuamos a "crescer e nos multiplicar" como se o planeta pudesse suportar um contingente cada vez maior de indivíduos? Por que estamos cada vez menos "humanos" e nos tornando meros apêndices das engenhocas que criamos? Por que, na maioria das vezes, somos solidários e compassivos apenas diante de catástrofes? Por que não somos inclusivos com idosos, pessoas com deficiência, homossexuais e tantos outros párias sociais? Por que ainda temos trabalho infantil e trabalho escravo no país? Por que ainda somos lenientes com pedofilia, estupro, prostituição e outros abusos e mazelas, desde que longe dos nossos "quintais"? Por que queremos todos os direitos para nós e os nossos mais próximos e exigimos os deveres apenas para os outros? Por que justificamos as nossas pequenas "contravenções" diárias a partir da impunidade alheia? Por que continuamos a votar se não acreditamos mais naqueles que se perpetuam no "poder"? E por que os empoderamos? Por que nossos políticos são chamados de "autoridades" quando, na realidade, são servidores públicos, remunerados com o dinheiro do contribuinte? Por que tantos privilégios, como aposentadorias especiais, cartões corporativos, imunidade parlamentar, isenção de impostos e sei lá que mais? Por que o dinheiro do contribuinte é chamado de "erário público"? Por que o crime não é punido? Por que quem tem renda sonega imposto e quem trabalha e recebe salário é taxado na fonte? Por que a remuneração do aposentado do setor privado é chamado de "benefício"? E por que é regulado pelos poderes executivo e legislativo, se é fruto do recolhimento compulsório de um percentual do salário mensal daquele que trabalha e de seu empregador? Por que a corrupção virou uma instituição nacional faz tempo? E por que nunca reagimos a ela?  Ou ainda, por que pactuamos com ela por mero comodismo? Por que nossas manifestações culturais legítimas vêm sendo dilapidadas pelo mau gosto subsidiado, de apelo fácil e descartável? Por que a grande imprensa é, invariavelmente, vassala do poder? E por que a imoralidade e a amoralidade vêm se tornando um novo paradigma nacional? Por que saúde, educação e segurança nunca foram prioridades na agenda da administração pública? Por que as Igrejas se tornaram superestruturas sociais milionárias, comprometidas com a alienação de seus seguidores, conhecidos como "fiéis"? Por que, a cada dia, cresce o número de jovens desamparados e desencantados, que aderem a grupos radicais em busca de um "ideal de vida", ainda que seja pelo caminho da violência? Por que as grandes potências não acabam, de fato, com o terror? E as nações emergentes com o crime organizado? Por que uma crise hídrica mundial? Por que a fome dizimando milhares? Por que a manutenção teimosa de modelos econômicos falidos e perversos? Para que essa célere caminhada em direção a uma hecatombe planetária? E por que nunca se esgotam os porquês?

Nota: todas as aspas não são meros e indigentes recursos literários, mas se justificam: a ironia é a minha tônica.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

MARIANA NO MAPA DO BRASIL

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(imagem do Google)

A cidade de Mariana, em Minas Gerais, é uma forte referência para mim. Não apenas por ter sido a primeira capital do estado onde nasci; tampouco por fazer parte do patrimônio barroco mineiro. Tenho, é claro, profunda admiração e um respeito quase devocional por tudo que a cidade representa para história do Brasil. Mariana é, ainda, conhecida pela forte religiosidade, tendo abrigado importantes conventos católicos e mantido as velhas tradições na celebração de datas significativas para a Igreja.
Além de tudo isso, Mariana é terra natal de artistas e escritores que emprestaram seu talento para o enriquecimento da cultura nacional. E é por essa razão que a cidade me conquistou e ocupa hoje um cantinho especial no meu coração. Estou ligada ao Movimento Aldravista, que teve início ali no ano 2000, refletindo a inquietação de escritores, poetas e artistas plásticos que buscavam uma nova estética na literatura e nas artes em geral. Sou membro de duas agremiações literárias na cidade e tenho amigos muito queridos que vivem lá.
A partir da tragédia ocorrida em distritos pertencentes ao município neste início de novembro, a qual vai revelando a face perversa do suposto desenvolvimento econômico, o estado de Minas Gerais vem ocupando espaço na mídia televisiva aberta, que, em geral, privilegia os fatos acontecidos no eixo Rio-São Paulo, como se o resto do país, de dimensões continentais, simplesmente não existisse ou tivessem qualquer importância. É, a um tempo, curioso e lamentável que apenas o ocorrer de uma catástrofe venha a nos colocar sob os holofotes dos noticiários. Parece que o brasileiro tem um gosto especial por acontecimentos funestos, o que se reflete nas estatísticas de audiência.  
Ainda impactados e perplexos, políticos, especialistas e imprensa especulam sobre o que pode ter levado as barragens onde se armazenavam rejeitos de mineração a se romper e liberar uma lama letal, que saiu soterrando tudo que havia pela frente e avança ainda, incontrolada, levando desespero e destruição por onde passa.
Como soe acontecer - um filme de terror que nos habituamos a ver, repetidamente -, a empresa responsável busca, insistentemente, justificativas para se eximir da responsabilidade, alegando que a contenção foi feita “rigorosamente” de acordo com normas técnicas, como se vistorias e manutenções regulares não fizessem parte da normatização. Até a hipótese de abalos sísmicos foi levantada, embora a priori não houvesse registros de tremores no local. Vale lembrar que se esse tipo de abalo é recorrente ali, as normas de construção dos diques deveriam, a rigor, levar esta contingência em consideração.
Em meio às perdas, ao sofrimento, à perplexidade e à incapacidade imediata de determinar a verdadeira causa da tragédia e avaliar todas as consequências dela decorrentes, alguns profetizam que levará de cinco a dez anos para que a região se recupere. Esta é a visão macro. Por trás dela, há muita dor individual que não será expurgada facilmente; há muita vida que terá de recomeçar do nada; há um ônus ambiental que dificilmente será recomposto. Na outra ponta, a solidariedade anônima; a fé daqueles que, a despeito dos prejuízos materiais, conseguem agradecer pelas vidas poupadas; a resistência aprendida em face da adversidade.
Há antecedentes suficientes, outros desastres semelhantes, mais do mesmo. Fica a pergunta: até quando?  

terça-feira, 6 de outubro de 2015

É INQUESTIONÁVEL: ELA CHEGOU!

                                    
       Enquanto a lua mingua no céu, na Terra um antigo relógio biológico põe-se a trabalhar em ritmo de equinócio. As águas chegam muito timidamente para essa época do ano nas Minas Gerais. No entanto, a primavera, sem se preocupar com as condições atmosféricas, está pronta para agir.

          Há uma névoa tornando a atmosfera mais densa e a chuva não deve tardar. Desço a serra da Moeda, em direção ao sítio. Felizmente, desta vez não tivemos queimadas, apesar de um incêndio próximo haver destruído grande parte da serra do Rola Moça. Sensação de dejà vu:   gente irresponsável e criminosa que ateia fogo às matas, dizimando ecossistemas inteiros. Uma lástima.     
     
          Porteira a dentro, já posso perceber a renovação. Sinto um sutil cheiro de verde no ar. Descarregado o carro e tudo acomodado, saímos andando para uma vistoria geral. Muito mato seco, sedento, é verdade. Entretanto, aqui e ali, apontam brotos novos nos troncos recém-aparados das dracenas e no bambuzal. As mangueiras começam a frutificar, embora devam produzir menos que em outros anos, por falta de chuva. Aliás, se ela não chegar logo, as jabuticabeiras, cobertas de frutinhas ainda esverdeadas, poderão ver perdida a sua generosa produção. Bananas temos, por serem um fruto perene, e muito limão rosado - que alguns conhecem por outro nome, bem esquisito por sinal -, aquele da casca alaranjada, com bastante caldo. Dizem que ajuda no controle da pressão sanguínea, mas eu bebo o suco para alcalinizar o estômago. Meu verdadeiro xodó, um pé de limão siciliano, cuja muda tive o prazer de plantar e da qual cuidei com dedicação e muita paciência, frutificou prodigamente este ano e já vem abotoando todo de novo.

          As plantas mais resistentes começam a exibir suas flores. Há lanterninhas chinesas (Abutilon striatum) por todo lado. A moita de Bela-Emília (Plumbago) – outro xodó – exibe suas florinhas de um azul bem claro, miudinhas mas inebriantes, assim como os jasmineiros. Lembro-me de quando era menina e vivia procurando alguma planta que desse flores azuis. Só muitos anos depois fiquei conhecendo as hortênsias, que florescem no inverno, e recentemente essa lindeza com nome de mulher. Do lado da casa que dá para a mata vários pés de manacá pintalgam o verde de branco, lilás e roxo e enchem o ar de um aroma adocicado As roseiras, podadas em agosto, reverdecem e, em breve, estarão floridas. Já azaleias, helicônias e buganvílias exibem a luxúria de suas floradas. E o chão começa a cobrir-se de vedelias, zebrinas e suzanas-de-olhos-negros (Thunbergia alata).

          Cigarras iniciam sua estridente algazarra, avisando-nos que vai chover, mas como as fileiras de formigas correição ainda não se formaram, deve demorar mais alguns dias para as abençoadas águas batizarem o solo. Sabiás já construíram seu ninho na varanda de casa, as gralhas se fartam com as frutinhas de uma árvore ali chamada de cabotá(?) e um calango-fêmea grávido passeia seu barrigão pelas paredes sem a menor cerimônia.

          Diante de orquestração tão afinada, é possível constatar, a cada ano, que a Terra não precisa de nós e que, independente e apesar da nossa intervenção, por vezes tão predatória, o relógio biológico da Natureza segue marcando o tempo e refazendo a vida.                    

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A REGRA DO JOGO

          



Em absoluto falarei do novo folhetim da Globo. Aliás, já foi repetido à exaustão que "a vida imita a arte", mas a famosa loura platinada de origem obscura pensa o contrário e vem, com isso, justificando o conteúdo duvidoso que empurra para cima de seus fiéis espectadores. Eu não "sigo" - como se costuma dizer - qualquer novela, mas ouço o comentário de um e outro e vejo, no intervalo do MGTV primeira edição, as insistentes chamadas nos intervalos comerciais. 
Venho falar de outra coisa. Vivemos um tempo de intolerância. Não que ela nunca tenha existido. A história mundial a revela e comprova ao relatar as inúmeras guerras ao longo dos séculos, mostrando como somos belicosos, beligerantes. Evoluímos bastante em muitos aspectos, mas as guerras continuam aí e sua face perversa pode ser constatada quando alguns países, que enriquecem com o extermínio de seus semelhantes fornecendo armamento e incitando o ódio, blindam suas fronteiras para os imigrantes.
Nosso Brasil já acolheu, no passado, italianos que fugiam dos conflitos na Europa e o navio Kasato Maru trouxe para o país famílias de japoneses que vinham trabalhar nos cafezais. Essa gente valorosa se estabeleceu aqui e, trabalhando duro, fizeram desta terra sua segunda pátria, agregando seus hábitos e sua cultura à construção de nossa identidade. Ainda hoje, recebemos imigrantes, agora de outras nacionalidades, como os haitianos e ganeses, que adentram o Brasil atravessando nossas fronteiras permanentemente abertas.
No entanto, no mundo globalizado, a intolerância agora é, também, territorial. E nada sutil. Costumamos afirmar, com todas as letras, que não temos preconceito étnico. Porém, veladamente, um número razoável de cidadãos de pele clara não tolera seus congêneres de tez escura, nos mais variados matizes, os quais, por sua vez, igualmente discriminam os "brancos", como eu. Via de mão dupla. A questão de gênero é outro exemplo. Cidadãos de diferentes orientações sexuais são agredidos e mortos diariamente
neste canto do mundo onde remanesce a hipocrisia do machismo.
Sou espírita. Para mim, o espiritismo é, acima de tudo, ciência e filosofia. Não cabe aqui - e sequer estou interessada - discutir a abrangência destes dois termos. Apenas lembro que, para muitos, ele também é uma religião. Recentemente assisti alguns debates televisivos sobre intolerância religiosa. Ficou claro que os cultos de matriz africana são os mais perseguidos, atingidos pela ignorância do preconceito.
Para completar, no último dia 24, a comissão especial que discute o Estatuto da Família, aprovou, por 17 votos a 5, o principal texto do projeto, que define família como a união entre homem e mulher e sua prole, excluindo todos os outros arranjos. Nova regra do jogo. 
É minha suposição que ambas as formas de intransigência - religiosa e de gênero - têm uma única e mesma origem. Por enquanto, apenas observo e vou costurando minhas constatações. Se vir confirmada minha tese,  o tema poderá ser assunto para outra crônica. Quem sabe?

segunda-feira, 8 de junho de 2015

MENINOS DO BRASIL - Diálogo poético


Meu amigo poeta, o manauara Edweine Loureiro, vive há alguns anos na Terra do Sol Nascente. Por lá, o astro-rei se levanta doze horas mais cedo do que aqui e ele, um semeador incansável na seara da poesia, é um homem solar. Inequivocamente.

Conhecemo-nos, faz algum tempo, no Facebook - sempre ele, a reduzir ou desfazer distâncias!... - e desde então vimos construindo uma amizade poética e um gentil vínculo de afeto. Por isso, sempre nos encontramos por aí, em concursos e publicações literárias, oportunas ocasiões para conhecermos e admirarmos, mutuamente, nossas incursões na literatura e cultivarmos uma parceria bonita no ofício da escrita.

Edweine acaba de lançar um caprichado e-book de trovas e poemetos, onde encontrei um texto que dialoga com um poema meu. Como já fiz outras vezes, com outros amigos escritores, publico aqui, hoje, nossa conversa sobre os meninos do Brasil. 

MENINOS (Angela Fonseca)

Os meninos que andam as ruas
do centro das grandes cidades
têm olhos de vidro e pedra e pó.
Em hordas alucinadas,
e porque a vida vale nada,
brincam com armas de verdade.

Os meninos que andam as ruas
do centro das grandes cidades
não sonham, apenas deliram.
São heróis-bandidos
e seus territórios obscuros
cheiram a sangue, fezes e urina.

As ruas das grandes cidades
por onde andam esses meninos
são becos sem saída. 

MENINO DE RUA (Edweine Loureiro)

Dormindo nos bancos,
faminto e aos prantos,
tem no olhar um desencanto.

E as mãos pequenas,
tão castigadas na vida, 
carregam as marcas
de uma infância esquecida.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

TEMPOS MODERNOS

(imagem da internet: filho de Jaime Gold chega ao velório no Cemitério do Caju)

          Faz alguns anos, um economista chamado Antônio Delfim Netto, que foi nosso embaixador na França e Ministro da Fazenda durante o regime militar, declarou alguma coisa como ”o nome do Brasil deveria ser Belíndia, já que a renda per capita  equipara-se à da Bélgica e o salário mínimo ao da Índia.” Com essas palavras, assentou seu próprio tijolinho à construção do velho conceito sobre má distribuição de renda e abismo social no país.
          Depois disso, ao longo dos anos seguintes, com a chamada “volta da democracia”, o pensamento socialista içou muita gente aos mais variados cargos públicos e adensou o discurso de supostos intelectuais da esquerda, que passaram a discutir os privilégios do que  eles denominam burguesia,  regando a conversa a champanha importado e comendo ovas de esturjão, o que acabou por lhes conferir o epíteto de “esquerda caviar”. Segundo eles, a violência hoje perpetrada contra o cidadão de bem, que trabalha e paga seus impostos, é, de modo simplório e reducionista, justificada pelo fato de os violentadores serem indivíduos injustamente postos à margem da sociedade próspera(?!) em que vivemos, produtos de uma imensa desigualdade social... Então tá.
          Ainda chocada com o assassinato do médico carioca, que relaxava de sua estressante rotina de cardiologista pedalando na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, fico buscando entender o que levou duas crianças a esfaquearem uma pessoa, perfurarem-lhe vários órgãos internos, fazendo com que sangrasse até a morte, por causa de uma bicicleta, um celular e um pouco de dinheiro. Algumas coberturas jornalísticas do ocorrido trouxeram testemunhos de que a vítima, conforme recomenda a Polícia Militar, não reagiu ao assalto. Mesmo assim, recebeu um golpe de faca impiedoso e fatal, como se para aqueles menores assaltantes a “cereja do bolo” fosse a brutalidade, a animalidade, a barbárie.
          Em uma digressão meio louca, eu, que, nestes 67 anos de vida tenho visto muita coisa mudar e venho atentando para a recente e rápida escalada da criminalidade, proponho-me uma teoria que possa, minimamente, explicar – se é que há explicação, porque justificativa não há – para o que aconteceu no Rio de Janeiro. Na minha juventude, os conhecidos “machões” – playboys que disputavam a posição de macho-alfa nas rodas de amigos – ganhavam o título em razão do número de mulheres que conseguiam “pegar” e, em seguida, descartar. Disputa patética, de predadores vazios e infelizes. Hoje, parece-me que o conceito de macheza evoluiu(?!) de modo perverso e radical. Os novos valentões são aqueles que colecionam vítimas da própria bestialidade como seus mais recentes troféus. O que é pior, sem qualquer punição.
          Aí, vem a tal esquerda rançosa defender os que já crescem brutamontes, pervertidos, ou, até, amorais. Para ela, o médico era um legítimo representante da burguesia e os meninos que o “justiçaram”, suas vítimas marginalizadas... Eu me pergunto, então: e aquele senhor que aguardava o ônibus no ponto, após mais um dia de trabalho, e foi assaltado, e depois esfaqueado no ombro e nas costas a propósito de nada, tendo que buscar socorro por sua própria conta e risco? Burguês, ele?
          Outros tempos... Modernos e cruéis demais para o meu gosto.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

UMA HISTÓRIA PARA NÍCOLAS

Este menininho aí embaixo e sua tia, a querida Andreia Donadon Leal, amiga, incentivadora, artista plástica talentosa e escritora de múltiplas letras inspiraram esta historinha singela. O menino lindo tem três aninhos de idade e já é artista, como a tia que tanto ama. Suponho que será também escritor algum dia, porque adora livros e as historias que eles contam. Os genes ele tem. Ambiente favorável e muito estímulo não lhe faltam. Na foto, o desenho de Nícolas, da série morcegos. Voilà.

Noite escura feito breu. Na mata, bichos noturnos saem das tocas. Mamãe Coruja, com seu piado assustador, vai à caça: o ninho, no telhado da casa, está cheio de filhotes famintos. Em voo certeiro, apanha pequenos animais sonolentos e insetos para matar a fome dos pequeninos. Besouros gordos, de asas leves, fazem um barulhão para manterem-se no ar, buscando a luz dentro das casas. Invariavelmente, caem no chão sob o peso do corpo. Morcegos rodopiam, em voos rápidos, silvando para não esbarrarem uns nos outros, procurando frutas para o jantar.
No castelo, todas as luzes apagadas. A princesa Deia dorme seu sono tranquilo, sonhando talvez os sonhos multicoloridos que povoam suas noites sossegadas. Todas as luzes apagadas, menos uma. No quarto do bravo soldado Nícolas, que não tem medo de nada, ele, acordado, vela pelo sono de sua querida princesa.
A luz atrai os besouros, mas a janela está bem fechada. Dali a pouco, morcegos negros começam a rodear a mesma janela, em busca das frutas esquecidas nas fruteiras e na mesa de jantar, abandonadas para o desjejum do dia seguinte. Que bichos feiosos! As asas parecem guarda-chuvas abertos, a cara, de olhos enormes, mas cegos, parece-se com a de um rato e pelos ralos cobrem o corpo desengonçado. 
Nícolas não teme os morcegos, é um soldado de coragem. Mas, preocupa-se com o sono de Deia, perdida em seus sonhos de princesa. 
Então, ele tem uma ideia: pega um pedaço de papel e desenha uma teia bem fechada e prega o desenho na janela. Zás! Um a um, os morcegos caem na tela. E ficam presos para sempre na teia de papel. Nicolas sorri, feliz. A esta hora, os bichos devem estar voando bem longe dali. E os sonhos da princesa estão garantidos. Viva Nícolas, o menino valente!
Angela Fonseca, abril de 2015